Aos 26 anos ela foi tirar a primeira carteira de motorista e descobriu que não enxergava de um olho. O outro olho, "o bom", precisava de um pouco de grau, por isso a oftalmologista que a atrendeu prescreveu óculos. Chegou até mim porque, depois de um ano, as lentes já estavam muito arranhadas:
- Fiz uma lente boa, mas trabalho como servente, uso muito produto de limpeza, às vezes os óculos embaçam e acabo limpando na roupa mesmo... Isso danificou as lentes... Do olho direito eu não enxergo, a oftalmologista disse que não tem mais jeito, que eu precisaria ter usado tampão até os 7 anos... Eu perguntei até se não haveria cirurgia, ela disse que não, foi taxativa: "O problema que tens é irreversível!" . Perguntei o que eu tinha no olho e ela escreveu num papel: "hipermetropia e astigmatismo", só que eu acho estranho, porque pesquisei na internet e vi que para esses problemas existe cirurgia! No Detran escreveram na minha habilitação "monovisão". O que é isso exatamente?
- Hipermetropia e astigmatismo são dois "problemas visuais" que estão localizados no globo ocular. Se fosse só isso haveria tanto correção óptica quanto cirúrgica. Acontece que o que tu tens está localizado depois do globo ocular, o problema está na comunicação entre o olho e o cérebro. Popularmente isso é chamado de "olho preguiçoso" ou "olho vago", tecnicamente chamamos de ambliopia. "Monovisão" significa que enxergas apenas com um olho.
- Nossa! Agora falaste uma coisa que faz todo sentido: eu olho para as imagens e até enxergo, mas parece que o cérebro não consegue interpretar aquilo que estou vendo!
Quando ela me disse isso fiquei toda arrepiada. Da mesma forma que a minha fala fez sentido pra ela, a dela me abriu uma janela importantíssima para o entendimento da ambliopia.
Dia desses eu escutei outro relato interessante de um homem que também descobriu ter um olho amblíope quando foi fazer a habilitação - ele usa lente de contato só no "olho ruim" (porque o "bom" não tem grau nenhum):
Dia desses eu escutei outro relato interessante de um homem que também descobriu ter um olho amblíope quando foi fazer a habilitação - ele usa lente de contato só no "olho ruim" (porque o "bom" não tem grau nenhum):
- Quando estou com a lente e fecho o "olho bom", demora um tempinho até que a imagem que vejo comece a se formar...
Neste caso específico concluo que a lente de contato foi vendida só para que o oftalmologista ganhasse uns trocados, porque na prática ele continua enxergando com apenas um olho.
Juntando essas informações com a leitura que fiz de alguns casos relatados no livro "O Olhar da Mente" de Oliver Sacks, fico imaginando o grande esforço neurológico que que precisa ser feito por quem possui um olho amblíope. Imagino que seja em função deste esforço que o cérebro acaba suprimindo a visão do "olho ruim".
Até pouco tempo acreditava-se que só se conseguiria estimular a visão
do olho amblíope até os 7 ou 8 anos de idade. Hoje já é possível recuperar ambliopias até em adultos, através de uma ciência chamada de
Optometria Comportamental (ou Neuro Optometria). É algo bem novo no
Brasil. Em Florianópolis existe uma clínica especializada, com
profissionais formados na Espanha.
Ao saber disso a moça ficou feliz e triste ao mesmo tempo: feliz por saber que existe solução para olhos que veem mas não conseguem enxergar e triste por constatar que dificilmente conseguirá pagar pelo tratamento.
Ao saber disso a moça ficou feliz e triste ao mesmo tempo: feliz por saber que existe solução para olhos que veem mas não conseguem enxergar e triste por constatar que dificilmente conseguirá pagar pelo tratamento.
No Brasil a saúde ainda é mercadoria! E mercadoria cara! Tem muita gente ganhando dinheiro com isso! Não é à toa que o Conselho Federal de Medicina quer impedir a entrada de médicos cubanos em nosso país! Infelizmente a Optometria tende a andar pelo mesmo caminho...
De minha parte continuarei lutando contra a mercantilização da saúde... No momento tudo o que posso fazer é ser solidária à dor de quem não pode pagar pelos cuidados que deveriam ser básicos. Estou iniciando o curso de Optometria Comportamental e quero fazer a diferença. Ainda não sei nem onde inicia esta estrada, mas tenho esperança de encontrar gente que me ajude a trilhá-la!
- Bianca Velloso -






