sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Canta, Maria

Fonte da imagem: Grafias Negras 

Maria. 50 anos. Negra. Moça bonita. Faxineira, estudante e atleta. Veio da roça aos dezesseis anos, "tentar uma vida melhor". Trabalhou em casa de família. Na época não podia estudar, dormia no emprego. Nos dias de folga saía para dançar. Gafieira era é sua dança preferida, mas dança de tudo.

Sempre atenta. Humana. Humanista. "O ser humano deve ser tratado como gente", afirma. Nunca fechou os olhos para o seu direito de ser, de existir, de viver.

Quando pode voltou a estudar. Sem abaixar a cabeça para as chacotas dos colegas de aula, adolescentes. 

A rotina de Maria é assim: acorda cedo, faz faxina num clube grande da ilha capital. Vai à escola, está cursando o ensino médio. E ainda sobra energia para o treino noturno de corrida.

Fez óculos para poder enxergar as letras dos cadernos e dos livros.

Maria tem dois sonhos: trabalhar com turismo e montar uma escola de dança.

Canta, Maria. Canta e continua. Segue. Dança, que tua dança ilumina a lua. Canta e corre. Prossegue. Passo por passo. Canta que teu sonho é possível.

- Bianca Velloso

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A OPTOMETRIA E MINHA IDA À DELEGACIA




Me chamaram na delegacia. Para prestar esclarecimentos a respeito da minha profissão por causa de um "possível exercício ilegal da medicina". Lá fui eu com a documentação embaixo do braço explicar que não me faço passar por médica, que sou optometrista, que tenho direito assegurado de exercer a profissão que escolhi, incluindo o direito de prescrever lentes de grau.

Houve uma denúncia, alguém fez um boletim de ocorrência, existe a possibilidade de ser aberto um processo criminal contra mim. Criminosa! Criminosa por trabalhar estando habilitada, formada, preparada.

Primeiro veio a raiva por saber que por trás de tudo isso está alguém que quer RESERVA DE MERCADO. A Optometria é uma profissão reconhecida pela Organização Mundial de Saúde, presente em mais de cem países. Cheguei na delegacia com a adrenalina a mil, mantendo a calma, explicando tudo com segurança e propriedade. O policial escrivão tratou-me com respeito e disse reconhecer que minha atividade profissional não é criminosa, mas quem decide se o processo vai ou não à frente é a delegada, que não sei quem é, não estava presente no momento do meu depoimento.

Quando a poeira baixou,inundou-me um enorme sentimento de tristeza. De volta em casa, como um filme na minha cabeça os anos que investi na formação (e ainda invisto, estou cursando uma especialização) e o dia transcorrido... O que mais me doeu foram os olhinhos assustados da minha filha quando eu contava para minha mãe que tinha que comparecer à delegacia:

- Tu vais ser presa, mamãe?

- Não, meu amor, não vou ser presa, só vou lá conversar com a polícia, mostrar meus documentos.

Se alguém pensa que isso vai me fazer desistir da profissão está muito enganado! Sou mulher guerreira e canto com Mario Lago:

"Barulho me dá cansaço,
choradeira me ingresia,
quanto menos chão pro passo
mais meu passo desafia,
se um nó me aperta e agonia,
tanto mais logo o desfaço.
Perder não doi nem me importa,
o meu pra mim voltará,
que a vida tem ida e volta
nas voltas que o mundo dá."



Depois da revolta e da tristeza o sentimento é de amor à OPTOMETRIA. E pela minha profissão lutarei até o fim! Os oftalmologistas pensam que nos assustam com atitudes como esta... Mas o que eles fazem de verdade é aumentar nosso amor e nossa vontade de lutar. Por isso eu agradeço ao "doutor" que incitou a paciente a me denunciar: me fez descobrir que meu amor pela OPTOMETRIA é muito maior do que eu imaginava que fosse.

Para minha filha o legado de que vale a pena lutar pelas causas em que a gente acredita!


- Bianca Velloso -

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Lição de realidade



Dez horas da manhã. Ele chegou fedendo a cachaça... Optometrista tem que ter bom olfato. Fiquei completamente sem jeito. Não dava para fazer o exame assim. Mas como falar isso pra ele? Fiz as perguntas habituais, depois as medidas no autorrefrator e enfim depois de fazer a oftalmoscopia (o exame de fundo de olho) me enchi de coragem:

- O senhor ingeriu alguma bebida alcoólica hoje de manhã?

- É... Bem... Quer dizer... Tomei sim uma cervejinha...

- Então, será que o senhor poderia remarcar esta consulta? É que assim fica complicado, pode dar alguma alteração, entende?

- Quer dizer que pelo olho dá pra saber se a gente bebeu é!?

- É, dá sim...

- Nossa, que vergonha eu passei agora...

- Não, o que é isso, não esquenta não... Também gosto de tomar uma cervejinha de vez em quando...

- Olha, eu gostei muito da honestidade da senhora, viu? Eu volto sim! Muito obrigado!

Tem dias que não é fácil, mas é gratificante. A gente consegue compreender um pouquinho mais do mundo e da alma da(s) gente(s).

- Bianca Velloso -

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Encontro, olhar e cumplicidade




"Um dia vem a vida e esfrega
a realidade na cara da gente!
Poesia não é feita
só de sonhos e fantasia
nem sempre é doce,
nem sempre é suave
pode ser grave,
pode ser dura
pode ser fria
Realidade também é poesia"

"Sentir a dor do outro
e saber que ela
é minha também,
porque é a dor do mundo
do mundo sem cor!
Descolorido mundo
Mundo doente
Se sou parte do planeta
também sinto dor.
Se não sinto nada
estou mais doente
do que o mundo!"

"Minha dor é sua
Sua dor é minha:
suador, febre, tontura...
Dor de impotência...
Dor de saber
Dor de capitalismo
Dor de desumanidade
Dor de desigualdade
Dor de individualismo
Dor de crueldade
de perversidade...
Dor... "

A mãe trazia o filho para uma avaliação optométrica, um homem, 26 anos, quase não falava, a mãe era quem conversava:

- Eu trouxe meu filho aqui porque os óculos dele estão ruins, as lentes estão arranhadas, já faz muito tempo que fez o último exame, tá reclamando da visão...

- Como está a tua saúde? Está tomando algum medicamento? - fiz as perguntas diretamente para o rapaz.

- Não é muito boa não, tenho epilepsia atípica e tomo medicamento para controle...

- E mais algum outro medicamento?

Foi a mãe quem respondeu:

- Ele vai começar a tomar todos esses medicamentos aqui, ó... E tirou uma lista de uns oito medicamentos diferentes, antidepressivos, ansiolíticos...

Fiz as anotações na ficha e prossegui o exame: olho direito tudo bem, olho esquerdo tudo bem também. Na hora de juntar os dois:

- E então, como fica com os dois juntos?

- Tá duplo!

Abaixei o grau, tirei do refrator (aquele aparelho que parece uma máscara), montei o grau na armação de prova (porque assim consigo mexer melhor no centro da lente)... Nada: a visão continuava dupla!

- Com os teus óculos a visão também é dupla?

- Sim!

- E sem óculos?

- Dupla!

- Meu filho, tu sempre vês duplo? - a mãe interferiu.

- Sim!

- E por que tu nunca me falaste isso, meu filho?

- Eu esqueço, mãe!

A mãe começou a chorar no consultório. Fiz o encaminhamento para optometria comportamental, pois este tipo de intervenção trabalha bastante com casos de visão dupla e tem bastante sucesso no tratamento.

- Vou abrir o jogo contigo, ele vai começar a tomar esses medicamentos todos porque foi diagnosticado com esquizofrenia, eu não sabia, mas ele batia com a cabeça na parede... Isso pode ter prejudicado a visão dele?

- Pode ser que seja por isso, pode ser que não... Agora o importante é a gente resolver essa questão!

- Só pra eu me preparar: é muito cara essa avaliação?

- Bom, não sei lhe dizer... A senhora tem que ligar pra lá e perguntar, sei que eles cobram um preço pela avaliação e depois, dependendo do tratamento tem outros valores...

Doeu responder aquilo. Aquela senhora estava disposta a pagar o que fosse preciso para resolver a questão do filho... Mesmo sendo gente de pouquíssimas posses...

- Se a senhora quiser eu posso acompanhar o tratamento, sou aluna deles, estou estudando optometria comportamental,  acho que não teria problema de vocês fazerem a avaliação lá e a gente continuar o tratamento aqui, se ficar mais fácil pra vocês...
- Pra nós facilitaria muito se fosse aqui... Obrigada!
- O que isso, me dá aqui um abraço - e abracei aquela senhora, com toda a cumplicidade de mãe, sem falar nada... Depois abracei o rapaz...
Emocionada, ela respondeu:
- Muito obrigada, minha filha! Acho que tu entendeste mais do que qualquer outro profissional pelos quais a gente já passou! Muito obrigada mesmo!
A compreensão da qual ela precisava: um abraço... Nada mais que um abraço!


- Bianca Velloso -

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Música na praça

Hoje não contarei causo de consulta. Falarei de um caso de amor com uma cidadezinha que me acolheu como filha. Toda semana, às quintas e sextas rodo trinta quilômetros de estrada e atendo em Palhoça, na grande Florianópolis. Nesta sexta saí de casa sem vontade, agenda vazia, precisando de grana...



Estava lá, desanimada dentro do consultório, com meu anjinho da guarda, Juliana, minha super assistente. De repente uma música invade a sala... Uma música bonita, sertanejo de raiz... Não me contive, fui até a praça em frente saber de onde vinha a música e quem era o artista que de repente encheu o dia de alegria com aquelas melodias: "Ave Maria", "Cuitelinho", "Romaria", "Tocando em frente", "Chalana"... Um caboclo simples, artista de rua, vindo de Aparecida (SP), Leon Guerreiro. Ele viaja com um grupo razoavelmente grande. Conversei rapidamente com alguns integrantes da equipe... A cena me levou para dentro de uma tela de cinema... Lembrei do filme "Gonzaga - de Pai para Filho". Tive vontade de saber mais sobre a vida dessas pessoas que levam arte de sul a norte... Já estavam deixando a cidade, eu também precisava voltar para o consultório...



O mais fantástico era perceber a reação e a expressão das pessoas que por ali passavam: quem estava com passo apressado desacelerava... Uma menininha que não tinha mais de dois anos, sentada no carrinho, embalava a cabeça seguindo o ritmo da música... Um radialista aposentado comprou alguns cds, fez pedido de música, foi atendido... Todos que pediam música eram atendidos! Um loira bonita de meia idade com uma faixa de miçangas na cabeça ganhou elogios e uma canção... Dois dentistas, de roupa branca, também pararam na calçada para escutar. Era impossível ignorar a música - patrimônio cultural de nosso país! Eu precisava registrar esta movimentação na pracinha simpática da cidade onde trabalho.



Uma senhora era a mais animada de todos, cantava junto... Saí do lugar onde estava, sentei ao lado dela, puxei conversa. Rose, cabeleireira, saiu cedo de casa para acompanhar a sobrinha nuns exames de laboratório. Disse que estava com sono e com fome, mas não conseguia sair dali, ficaria até o último momento, curtindo a música: "Isso não acontece todo dia, minha filha! A gente tem que valorizar a cultura da gente! A música é tudo na minha vida! Eu fico toda arrepiada! Sou cabeleireira, mas estudei pra música também, sei tocar violão! E essa música... É tudo! Contagia! Olha, não tem quem não goste!"



Juliana, o meu anjinho, também veio sentar ao meu lado! Até o patrão sentou conosco para escutar! Coisas que só acontecem em cidades que ainda preservam um quê de interior... Aqui em Florianópolis, a minha cidade, que também amo de paixão, isso não acontece mais...



- Bianca Velloso -

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sobre olhos preguiçosos, novas ciências e o preço da saúde




Aos 26 anos ela foi tirar a primeira carteira de motorista e descobriu que não enxergava de um olho. O outro olho, "o bom", precisava de um pouco de grau, por isso a oftalmologista que a atrendeu prescreveu óculos. Chegou até mim porque, depois de um ano, as lentes já estavam muito arranhadas:

- Fiz uma lente boa, mas trabalho como servente, uso muito produto de limpeza, às vezes os óculos embaçam e acabo limpando na roupa mesmo... Isso danificou as lentes... Do olho direito eu não enxergo, a oftalmologista disse que não tem mais jeito, que eu precisaria ter usado tampão até os 7 anos... Eu perguntei até se não haveria cirurgia, ela disse que não, foi taxativa: "O problema que tens é irreversível!" . Perguntei o que eu tinha no olho e ela escreveu num papel: "hipermetropia e astigmatismo", só que eu acho estranho, porque pesquisei na internet e vi que para esses problemas existe cirurgia! No Detran escreveram na minha habilitação "monovisão". O que é isso exatamente?

- Hipermetropia e astigmatismo são dois "problemas visuais" que estão localizados no globo ocular. Se fosse só isso haveria tanto correção óptica quanto cirúrgica.  Acontece que o que tu tens está localizado depois do globo ocular, o problema está na comunicação entre o olho e o cérebro. Popularmente isso é chamado de "olho preguiçoso" ou "olho vago", tecnicamente chamamos de ambliopia. "Monovisão" significa que enxergas apenas com um olho.

- Nossa! Agora falaste uma coisa que faz todo sentido: eu olho para as imagens e até enxergo, mas parece que o cérebro não consegue interpretar aquilo que estou vendo!

Quando ela me disse isso fiquei toda arrepiada. Da mesma forma que a minha fala fez sentido pra ela, a dela me abriu uma janela importantíssima para o entendimento da ambliopia.

Dia desses eu escutei outro relato interessante de um homem que também descobriu ter um olho amblíope quando foi fazer a habilitação - ele usa lente de contato só no "olho ruim" (porque o "bom" não tem grau nenhum):

- Quando estou com a lente e fecho o "olho bom", demora um tempinho até que a imagem que vejo comece a se formar...

Neste caso específico concluo que a lente de contato foi vendida só para que o oftalmologista ganhasse uns trocados, porque na prática ele continua enxergando com apenas um olho.

Juntando essas informações com a leitura que fiz de alguns casos relatados no livro "O Olhar da Mente" de Oliver Sacks, fico imaginando o grande esforço neurológico que que precisa ser feito por quem possui um olho amblíope. Imagino que seja em função deste esforço que o cérebro acaba suprimindo a visão do "olho ruim".

Até pouco tempo acreditava-se que só se conseguiria estimular a visão do olho amblíope até os 7 ou 8 anos de idade. Hoje já é possível recuperar ambliopias até em adultos, através de uma ciência chamada de Optometria Comportamental (ou Neuro Optometria). É algo bem novo no Brasil. Em Florianópolis existe uma clínica especializada, com profissionais formados na Espanha.

Ao saber disso a moça ficou feliz e triste ao mesmo tempo: feliz por saber que existe solução para olhos que veem mas não conseguem enxergar e triste por constatar que dificilmente conseguirá pagar pelo tratamento.
No Brasil a saúde ainda é mercadoria! E mercadoria cara! Tem muita gente ganhando dinheiro com isso! Não é à toa que o Conselho Federal de Medicina quer impedir a entrada de médicos cubanos em nosso país! Infelizmente a Optometria tende a andar pelo mesmo caminho...
De minha parte continuarei lutando contra a mercantilização da saúde... No momento tudo o que posso fazer é ser solidária à dor de quem não pode pagar pelos cuidados que deveriam ser básicos. Estou iniciando o curso de Optometria Comportamental e quero fazer a diferença. Ainda não sei nem onde inicia esta estrada, mas tenho esperança de encontrar gente que me ajude a trilhá-la!

- Bianca Velloso -

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Atrás dos óculos



Carlos Drummond de Andrade fala no "Poema de sete faces" sobre o "homem atrás dos óculos". Vinícius de Moraes e Toquinho também cantaram este verso em "Um Homem Chamado Alfredo". Triste e bela metáfora, tão verdadeira! Quando se trabalha com a visão, essa imagem das pessoas que se escondem atrás dos óculos fica tão forte que chega a doer.

Ela entrou no consultório sem óculos, num final de manhã, quase tarde. O nome dela era comprido, difícil de dizer, formal demais para quem gosta de olhar para as pessoas bem de perto. Era evidente que ela tinha um apelido carinhoso pelo qual gostava de ser chamada.

- Como eu posso chamar a senhora?

- Pode chamar de Mariquinha mesmo!

- Que bom! E então, Dona Mariquinha, o que traz a senhora aqui, o que está acontecendo com a sua visão?

- Ah, minha filha, meus óculos quebraram! Eu não sei como, quando eu percebi já estavam quebrados! Pra falar a verdade, eu já deveria ter trocado de óculos há tempo! Mas eu não queria! Lá em casa está acontecendo muita coisa, sabe, filha? De vez em quando eu chorava e não queria dizer pra ninguém que estava chorando, então eu dizia que a lágrima escorria por causa dos óculos, que a lente estava muito arranhada, o grau fraco... Faz tempo que meu velho anda doente, com câncer de próstata... Tu és casada, né, filha, sabes como é... Desculpa falar assim, tu és novinha, mas tens cara de mulher casada...

Dona Mariquinha não me dava tempo para responder. E nem eu tinha coragem de cortá-la. Muito mais do que óculos novos ela precisava de alguém que a escutasse. Não sou casada, mas não queria contrariá-la nem desviar o foco da conversa. Assenti gesticulando com a cabeça e deixei que ela prosseguisse. Era uma história bonita. Triste, mas bonita.

- Logo em seguida vieram os problemas de coração... Ele está muito fraquinho! Nós tivemos nove filhos, um Deus levou... E se Deus levou está bem, né? Faz uns quinze dias, eu estava deitada com meu velho, assim de noitinha, de ladinho na cama. Estávamos tranquilos e eu disse para ele que a gente tinha que agradecer porque tinha passado um dia tão gostoso, sem nenhuma incomodação. Depois disso levantei para fazer uma comidinha pro jantar... Quando voltei pro quarto ele estava caído no chão, tinha infartado... Chamei os vizinhos, os filhos, o táxi e fomos para o hospital... Nessa confusão toda perdi os óculos e quando os encontrei, estavam quebrados! Tenho gastado muito de táxi, filha, meu velho está muito fraquinho, não dá para andar de ônibus com ele assim! Ainda bem que o taxista é conhecido e vai colocando na conta! Os óculos eu só posso fazer se for sem entrada! Mas eu estou muito triste, filha! Tenho setenta e três anos, meu velho tem setenta e quatro! A gente sempre se deu muito bem! E agora vê, filha, eu vou ficar viúva, eu sei que a vida dele está chegando ao fim! Vou ficar viúva cedo! Eu não quero ficar viúva cedo!

Que lindo este olhar: aos setenta e três anos Dona Mariquinha acredita que é cedo para ficar viúva! Sempre é cedo demais para quem se despede do grande amor!

- Bianca Velloso -

domingo, 27 de janeiro de 2013

Oração de uma Optometrista



Quero ir além
das lentes e dos prismas
Nesta arte
de melhorar olhares
Quero despertar
o sonho e a fantasia
muito além da teoria!
Uns me chamarão de louca
E outros, de poeta!
 
- Bianca Velloso -

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Trapalhadas e descobertas

Arrumei um trabalho novo, no outro lado da cidade, distante trinta e cinco quilômetros de casa. Meu primeiro dia foi todo atrapalhado. Estava contando que minha mãe poderia ficar com minha filha, o que não foi possível. Precisei deixar meu rebento na casa do pai, o que aumentou consideravelmente o meu trajeto.

Ao sair de casa lembrei que este consultório novo possuia apenas um projetor de optotipos (um aparelho que projeta letras, números e desenhos e dá a informação da acuidade visual, ou seja, é um aparelho que possibilita quantificar a visão). No carro estava minha caixa de provas (uma maleta cheia de lentes) e a armação. Estava faltando o retinoscópio - equipamento com o qual se pode analisar o comportamento da luz dentro do olho do paciente e assim determinar se é míope, hipermétrope ou astigmata, bem como os valores aproximados das lentes que necessita - que estava no meu consultório, bem longe da casa do pai de minha filha e do trabalho novo.

Olhei o relógio. Percebi que tinha duas opções: ou chegava atrasada no primeiro dia ou ia sem equipamento. Com a cara e a coragem fui sem equipamento. O trabalho seria um pouco mais demorado, mas eu conseguiria chegar ao mesmo resultado.

Com algum domínio de óptica fisiológica e dos recursos do projetor é possível saber se o paciente é míope, hipermétrope ou astigmata:

Primeiro recurso: o "dial", que é a imagem de um relógio ou transferidor - se o paciente enxergar todos raios com a mesma nitidez não possui astigmatismo, se identificar raios com maior nitidez é porque existe astigmatismo. O raio mais nítido determina o eixo (ou a posição) deste astigmatismo. Isso porque o astigmatismo trata-se da existência de diferentes "graus" numa mesma estrutura ocular (geralmente a córnea, mas pode ser também o cristalino). O meridiano com menor "grau" é o que possui maior nitidez. Compensa-se o astigmatismo acrescentando lentes cilíndricas até que o paciente enxergue todos os ponteiros com a mesma nitidez.


Segundo recurso: o teste bicromático, que é a projeção de letras sobre um fundo verde e outro vermelho. Sabe-se que a luz vermelha tem um comprimento de onda maior, o que facilita a visão do míope, que também possui o olho mais comprido. A luz verde tem um comprimento de onda menor, o que facilita a visão do hipermétrope, que possui o olho mais curto. Portanto, se o paciente enxerga melhor sobre o fundo vermelho acrescenta-se lentes negativas até que observe que a nitidez se iguala no verde e no vermelho. Quando o paciente enxerga melhor sobre o fundo verde acrescenta-se lentes positivas até o equilíbrio entre as cores.



Quando contei a façanha para um amigo, ele perguntou espantado, como se eu estivesse praticando bruxaria:

- Que isso? Mágica?

- Não. É física, - respondi - é pura física!

Mas não é só física, é uma mistura de conhecimento técnico, escuta, sensibilidade e paciência, exercício diário. Experiência que só se domina com a prática, com erros e acertos. Foi muito bom ter esquecido os equipamentos na estreia. Porque percebi que um bom exame não depende de equipamentos modernos. Existem muitos outros fatores que interferem no atendimento.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Sobre o carinho


 Quadro "Tem Tainha na Ilha" de Rodrigo Pereira



Seu João traz no rosto as estradas traçadas pela intransigência do tempo, pela rigidez da vida, pela labuta sob o sol e sobre a água salgada; profundos sulcos...

Chegou de muletas, acompanhado pela filha. Sessenta e dois anos marcados no corpo como se fossem mais, bem mais, uns quinze mais, talvez... Não contou muitos detalhes da sua história. Disse apenas que é morador da Praia da Pinheira, pescador aposentado, fato que talvez explique a catarata precoce.

No olhar quase sem brilho trazia a esperança de encontrar solução para o seu problema:

- Eu vim aqui para ver se consegues me fazer enxergar da vista direita! Não enxergo nada com ela!

- O médico falou que era para o pai operar esse olho, mas ele não quer... - entregou a filha.

(Esses dias li um artigo na revista Saúde que falava sobre a importância de os idosos irem às consultas acompanhados por um familiar: "'Isso é positivo se levarmos em consideração que muitas pessoas mais velhas não conseguem dar todas as informações importantes ao clínico e às vezes não se dão conta de alguns problemas que podem ser percebidos por um familiar', avalia o geriatra Omar Jaluul, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo".)

- Me conta direito essa, história, Seu João! - pedi.

- Eu tinha catarata nas duas vistas, operei a esquerda, com ela enxergo bem, com direita não enxergo nada, acho que ela está começando a atrapalhar a esquerda, corre muita água do meu olho! Mas eu não quero operar não!

- Por que não, Seu João?

- Por que não? Já viu o tamanho da "gulha" que eles usam para dar anestesia? É uma "gulha" enorme! Não quero não!

Seu João tem medo de agulha! Olhei para a filha e brinquei:

- Imagina se tivesse que ganhar filho, né?

Ela riu e concordou comigo, ele retrucou, coberto de razão:

- Não! Cada um com a sua dor! Cada um sabe de si!

Examinei-o. Realmente, o cristalino direito estava completamente opaco, sem chance de a imagem chegar à retina...

- É, Seu João, não tem jeito não! Infelizmente eu não posso fazer nada para melhorar a visão deste olho! Só a cirurgia mesmo é que vai resolver! O senhor tem que procurar um oftalmologista e operar!

Alterei um pouco o grau que estava usando no olho bom, com o objetivo de amenizar os sintomas que vinha apresentando - o cansaço visual e o lacrimejamento). Ele ficou triste por não haver solução que não a cirurgia para catarata, mesmo assim me agradeceu com um carinho sem tamanho, decidido a não operar! 

Quando a menina que me auxilia entrou no consultório para acompanhá-los até a saída, surpreendeu-nos no exato momento em que ele beijava minha mão:

- O que é isso, Seu João? O senhor sabe de pode beijar a mão dela assim? O senhor é danado, hein? Traz a filha e não traz a mulher só pra poder beijar, né?

Todos rimos!

- Pode beijar sim, Seu João! Um carinho assim é sempre bom! - e por fim beijei-lhe a mão também!

sábado, 13 de outubro de 2012

Duas mulheres



Ouso dizer que Eduardo Galeano é um dos pensadores mais contundentes e coerentes da história recente. Palavras dele, que me levam a pensar no que vivo cotidianamente no consultório optométrico:

Eu não acredito em caridade, acredito em solidariedade.
Caridade é muito vertical, de cima para baixo. Solidariedade é horizontal, respeitando as pessoas.
Tenho muito a aprender com as outras pessoas.

Ana era minha primeira paciente do dia. Passei por ela na recepção e escutei parte da conversa:
- Ah, não sei... Acho que não vou consultar... Nem sei se vou ter dinheiro para fazer os óculos depois...
Entrei no consultório crente de que desistiria da consulta, mas em seguida ela também entrou: desconfiada, com a cara fechada, pouco a pouco foi se deixando conquistar. Trabalho sem pressa, com carinho, com amor à profissão, com muita escuta e, sobretudo, com muito respeito a quem me procura. No fim até sorriu. Despediu-se dizendo:
- Amanhã vou trazer minha irmã aqui! Mas para ela tens que colocar números, eu ainda conheço um pouco as letras, ela não!
É impressionante o número de pessoas analfabetas ou semianalfabetas que ainda hoje encontro numa das principais cidades catarinenses (segundo o IBGE Santa Catarina é o terceiro estado brasileiro com menor taxa de analfabetismo).
No dia seguinte lá estava ela com a irmã, que não conhecia letras, não sabia a data de nascimento e nem a própria idade. Percebi que não se tratava de alguém com baixo QI ou com algum déficit cognitivo. Tratava-se de uma mulher comum, a quem o correr da vida não permitiu que pudesse dar importância a essas pequenezas do mundo burguês. A ela não foi dada a oportunidade de aprender a ler e, talvez porque a vida não lhe proporcione motivos para comemorar, não guarda as datas na memória.
Duas mulheres fortes, guerreiras, que me ensinam que é preciso olhar para as pessoas com carinho e lutar com elas por um mundo mais digno e mais humano! Não para que guardem datas comemorativas, mas para que dominem os meios que lhes podem permitir mudar a história e assim comemorar a própria vida.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Seu David

 Minha convicção de que as pessoas mais simples são também as mais bonitas torna-se mais forte a cada dia. Não falo dessa beleza artificial comprada em salões, academias e clínicas de estética. Falo de beleza de verdade.

Seu David chegou no meu consultório trazendo muita alegria numa manhã de terça-feira. Carpinteiro, analfabeto, a boca desdentada e a fala rápida típica da gente do litoral catarinense:

- Eu gostei de ti, nega! Tu atendes direitinho, tu escutas a gente, tens paciência! Não é todo mundo que atende a gente assim não, tem muito médico e dentista por aí que nem olha na cara da gente! - não preciso nem dizer que ganhei o dia com este elogio, né? - Desculpa te chamar de nega, mas é o meu jeito falar, não tem?

- Não tem problema, não, seu David, pode me chamar de nega, eu gosto, é carinhoso!

Depois me perguntou se não tenho medo de ficar sozinha com uma pessoa dentro do consultório. Expliquei que não, que tenho câmeras que me cuidam o tempo inteiro. Contou orgulhoso que é pai de seis, avô de dez e bisavô de uma. Havia muita doçura nos seus olhos!

Foi embora levando a possibilidade de enxergar o mundo com maior nitidez através de novas lentes e deixando meu olhar repleto de beleza e carinho.

Às vezes as pessoas não precisam muito mais do que isso: de alguém que lhes dê atenção, que lhes ofereça um pouquinho de carinho. Um feliz encontro de histórias e olhares! 
 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Olhos que sorriem


FRAGMENTO

Machado de Assis

"...Eu gosto de olhos que sorriem,
de gestos que se desculpam,
de toques que sabem conversar
e de silêncios que se declaram..."


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Quem direciona o olhar é o coração


O problema de ter dois blogs é este: existem histórias que fazem parte da minha poesia cotidiana e ao mesmo tempo retratam olhares... Na dúvida resolvi publicar nos dois. Esta história fala de olhar, de olhar para a vida com outros olhos, que é o objetivo de “Histórias e Olhares”. E também vem carregada do meu olhar de mãe. Mas acima de tudo é um olhar de orgulho, carinho e admiração por uma amiga guerreira. 
Juro que não pensei que ela tivesse toda essa força. Chorei quando recebi a notícia de que ela teria que enfrentar um linfoma. Meu irmão já enfrentou esta luta (a história dele pode ser lida aqui) e sei que é uma barra pesadíssima. Por mais que o linfoma seja um dos tumores com melhor prognóstico, é um câncer e há que se enfrentar a quimioterapia.
Uma vez fui visitá-la no início do tratamento e conversamos sobre a inevitável queda de cabelo. Contou-me que não tinha vontade de usar peruca, que iria assumir a careca. Acabou aderindo às perucas para evitar o olhar de pena que a maioria das pessoas dirige para quem está enfrentando uma quimioterapia. O olhar de pena sempre é arrasador e o que mais se precisa nessas horas é coragem e esperança. Foi duro vê-la careca pela primeira vez, no meu consultório optométrico, só nós duas, mas acho que consegui segurar a onda.
A pior parte do tratamento já terminou. Por mais dois anos terá que tomar um medicamento de controle, mas não tem mais quimioterapia. O cabelo dela já começou a crescer, ainda está bem curtinho, mas já está cheio. Agora ela não usa mais peruca. E está linda assim!
Ontem fomos almoçar na casa dela, Helena – minha filha – e eu. Em determinado momento foram as duas até o quarto, fiquei na sala. De repente aparecem rindo: Helena estava com uma das perucas compradas especialmente para enfrentar o período da quimioterapia. Aquilo virou uma gostosa brincadeira. Todos experimentamos as perucas – até o pai da minha amiga entrou na onda. Mais uma vez tive que conter o choro. Mas fiz questão de fotografar a cena. Helena sabe que minha amiga esteve doente, não sabe e não entende o que de fato aconteceu. Mas a foto foi feita e, quando Helena crescer e conseguir entender, terei o maior orgulho de mostrar a ela como alguém pode transformar em brinquedo um objeto muito significativo de uma parte bastante sofrida da própria história!
Muito obrigada, minha linda amiga, por me proporcionar uma cena de tamanha beleza! Nunca vou esquecê-la! Muito obrigada por me dar oportunidade de contar essa história de superação para minha filhota! Muito obrigada por me ensinar a olhar para aquela peruca como um troféu de uma batalha que venceste!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O olhar da mente - Oliver Sacks

Depois de ficar cega na casa dos quarenta, Arlene Gordon descobriu que a linguagem e a descrição eram cada vez mais importantes, pois estimulavam sua capacidade de lidar com imagens mentais mais do que antes, e, em certo sentido, permitiam-lhe ver. "Adoro viajar", ela me diz. "Eu vi Veneza quando estive lá". Ela explicou que seus companheiros de viagem descreviam os lugares, e ela então construía uma imagem mental baseada nos detalhes que eles lhe forneciam, em suas leituras e em suas próprias memórias visuais. "Pessoas que veem têm prazer em viajar comigo", ela comentou. "Faço perguntas, e elas então veem coisas que, se não fosse por mim, passariam despercebidas. É tão comum pessoas que têm visão não verem nada! É um processo recíproco - enriquecemos mutuamente os nossos mundos".

Temos aqui um paradoxo - delicioso - que não consigo resolver: se de fato existe uma diferença fundamental entre a vivência e a descrição, entre o conhecimento mediado do mundo, por que então a linguagem é tão poderosa? A linguagem, a mais humana das invenções, pode possibilitar o que, em princípio, não deveria ser possível. Pode permitir a todos nós, inclusive os cegos congênitos, ver com os olhos de outra pessoa.

Trecho do livro "O olhar da mente", de Oliver Sacks, um pouco daquilo em que acredito quando ouço e posteriormente escrevo as histórias dos meus pacientes: a tentativa de olhar para a vida com os olhos de outras pessoas!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O seu olhar

 O que vale é a gente se alimentar dos olhares dos outros, olhar com os olhos do outro:



domingo, 1 de julho de 2012

Um olhar para a Optometria – Quando minha história encontra Dona Maria


Cada vez mais me apaixono por minha profissão. Profissão que talvez eu nem possa exercer... Sou optometrista formada em curso superior no ano de 2004 e desde então luto pelo direito de poder trabalhar. Muitos médicos oftalmologistas dizem que eu quero executar uma atividade profissional que só compete a eles. Alguns chegam ao cúmulo de chamarem a mim e a meus colegas de “falsos médicos”. Deveriam passar um tempo na Europa, nos Estados Unidos ou na Colômbia para ver o que é realmente a Optometria, ou pelo menos consultar os documentos da Organização Mundial de Saúde que reconhece nossa profissão. Alguns médicos brasileiros acham que podem mais do que o mundo! Não quero ser médica e sei exatamente até onde vai o meu trabalho!
De vez em quando saio da minha cidade – Florianópolis – e vou atender em Jaraguá do Sul, no consultório de um colega que está se especializando em Optometria Comportamental. Quando isso acontece, saio de casa às cinco horas da manhã e pego a estrada dirigindo meu valente Clio vermelho. Faz pouco tempo que descobri o prazer de dirigir na estrada, morria de medo, pânico mesmo, até que me apaixonei por um homem que mora a trezentos e cinquenta quilômetros de distância da minha casa... Não tem jeito, para namorar tenho que enfrentar a BR serra acima! Ainda tenho medo, ainda saio de casa pensando que poderei não voltar... Mas meu namorado me disse que ninguém morre antes da hora... E eu acreditei! E aí comecei a encarar o medo e até a gostar dessa adrenalina.
Rumo a Jaraguá do Sul, o dia começando, ouvindo Marina de La Riva cantar “Ojos Malignos” no rádio do carro, às seis horas da manhã, um pouco antes de passar por Itapema, vi uma paisagem tão maravilhosa que uma sensação enorme de prazer percorreu todos os meus neurônios, cada pedacinho do meu corpo, me senti em transe... Um prazer solitário, delicioso... Vi os contornos de dois morros começando a contrastar com o céu que pouco a pouco clareava e duas estrelas enormes e brilhantes. Agradeci (a Deus, à Natureza, à Vida, ou seja lá que nome se queira dar a esta força que nos move e faz o mundo girar) por ter olhos e ouvidos sadios que me permitem misturar sensações que me fazem acreditar que viver vale a pena.
E aí lembrei da Dona Maria, uma senhora linda cujos cabelos o tempo se encarregou de branquear, que eu atendera no dia anterior, num dos locais onde trabalho:
- Quero fazer óculos para enxergar longe, não estou conseguindo mais definir o rosto das pessoas quando elas estão meio distantes. Perto até que eu enxergo bem, gosto de jogar baralho e consigo enxergar as cartas. Cruzes! É até pecado dizer que eu não enxergo, eu enxergo, mas acho que podia ficar melhor.
- E a saúde geral, como está, Dona Maria, tudo bem? Tem algum problema como pressão alta ou diabetes?
- Ah, eu sou diabética...
- E faz algum controle alimentar ou com medicamento?
- Não faço não, minha filha, eu vou morrer de qualquer jeito, comendo ou não... Então eu como mesmo, tudo o que quero, não passo vontade não!
A filha dela que estava junto na consulta e até então não havia interferido resolveu falar. Relatou que a mãe não se cuida, que há alguns anos quiseram lhe operar os olhos (não soube especificar o motivo da cirurgia), mas ela e os irmãos não autorizaram por medo já que a mãe é portadora de diabetes. Dona Maria confessou que fez exames há pouco mais de um mês, mas o resultado estava no fundo de uma gaveta, sem nem ser aberto:
- É difícil conseguir médico e eu sou relaxada mesmo, poderia ter levado numa farmácia pelo menos, né?
Examinei-a e descobri uma opacificação no cristalino, estava aí o motivo da cirurgia que elas não souberam especificar. Não vou dizer o que significa uma opacificação no cristalino porque os médicos podem querer dizer que estou diagnosticando alguma coisa, mas esse significado pode ser facilmente acessado com uma busca rápida no “Doutor Google”. Isto compromete bastante a visão. Detectei também a presença de dioptria negativa, que provavelmente está relacionada com as altas taxas de açúcar no sangue. Não dava para prescrever óculos, pois quando a diabetes não está sob controle a visão oscila muito – as altas taxas de açúcar no sangue modificam o índice de refração do cristalino e o grau de hoje pode não valer nada amanhã.
Expliquei para Dona Maria que não poderia dar óculos a ela enquanto não estivesse controlando a doença. Falei da importância desse cuidado e que ela precisava ir ao posto de saúde e insistir para que o médico analisasse o seu exame, que deveria procurar um oftalmologista para solucionar a opacificação no cristalino depois que estivesse com a diabetes sob controle e só então ela poderia fazer os óculos.
Dona Maria tem razão: morrer todo mundo vai morrer mesmo. Entretanto, enquanto vivermos temos o direito da qualidade de vida! De que adianta viver sem enxergar direito e com uma série de problemas decorrentes da doença?
Ela entendeu, agradeceu, me beijou, me abraçou, elogiou meu trabalho. Eu não solucionei o “motivo principal da consulta”, que eram os óculos que ela queria para enxergar longe, mas cumpri meu trabalho, sim, pois também é papel do optometrista a conscientização! Não somos médicos, mas somos sim profissionais da saúde. Terminei o atendimento feliz e completamente consciente de que nunca quis exercer a medicina! Agora um juiz vai decidir se eu posso ou não ser optometrista. Tomara que ele entenda que o meu trabalho não tem nada a ver com a função do oftalmologista e me dê o direito de exercer com plenitude a profissão que escolhi.